Já no início do curso de graduação em Psicologia me encantei pela psicanálise enquanto uma lente de leitura dos fenômenos que compõem a complexidade do existir humano. Me instigava muito os modos como essa abordagem colocava em perspectiva os enlaces da singularidade humana com os campos social e político, bem como o lugar central dado à primeira infância na estruturação da dinâmica dos afetos, dos posicionamentos e das repetições empreendidas pelo sujeito ao longo da vida.
Um pouco mais adiante em meu percurso, me deparei com o ensino de Lacan, no qual me chamou atenção o enfoque dado ao papel da linguagem como um potente operador clínico. As palavras adquirem, aqui, uma função organizadora na maneira como os sujeitos se colocam no mundo, se relacionam com os outros e constituem, cada um a sua maneira, uma ideia de si, com todas as distorções, satisfações e incômodos que isso possa comportar.
Minha clínica proporciona, desse modo, o encontro entre a livre associação do analisando, regra fundamental da prática analítica, e uma escuta não qualquer.
O dizer do analisando acerca do seu mal-estar acolhido por uma escuta atenta à angústia, ao excesso e, inclusive, aos pontos onde a palavra não alcança, cria um campo fértil para que sejam colocados em relevo as particularidades de seus modos de sofrer, amar, desejar, se agenciar no laço social e de fruir a vida.
Tudo isso, em um espaço livre de julgamentos e de imperativos de adequação, é passível de movimento e invenção.
