Meu Contato com a Clínica da Adolescência

O contato com o fenômeno da adolescência ao longo da minha formação se iniciou com o ingresso no programa Janela de Escuta, projeto de extensão da Faculdade de Medicina da UFMG que oferece escuta clínica de orientação psicanalítica e acolhimento psicossocial a adolescentes. Além disso, fui estagiário do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, no Programa de Atenção Integral ao Paciente Judiciário, em uma equipe dedicada ao trabalho com adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas. Essas vivências, aliadas ao ensino de Lacan e à leitura de psicanalistas como Philippe Lacadée e Domenico Cossenza, me permitiram enxergar a adolescência como um fenômeno crucial no campo dos sintomas do desenvolvimento humano, no qual o adolescente se vê lançado em um percurso sem roteiros, sendo atravessado pelos fenômenos das seguintes ordens:

  • Uma série de mudanças no corpo que o convocam a tomar posições nos campos da sexualiade e da relação com o outro. Transtornos alimentares e outras adversidades são comuns nessa fase.
  • Queda das figuras de autoridade tidas, até então, como detentoras do saber, impondo ao adolescente a complexa tarefa de constituir o seu próprio saber acerca de si e dos seus desejos.
  • Perguntas sobre “o que fazer da vida?”, impasses no âmbito escolar, uso das redes sociais,  incidência das paixões e das escolhas amorosas.
  • Mal-estar advindo do contato com as instituições de saúde, escolas e referências familiares, aos quais o adolescente é um estranho assim como o é para si mesmo.

Diante desse cenário, minha prática se orienta pela posição ética de uma abertura de um espaço de acolhimento e reposicionamento subjetivo. Um intervalo diante da dinâmica incessante das demandas e do imediatismo contemporâneo, que exige respostas rápidas e que banaliza a violência e o desamparo.

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